Cine PE – parte 1

4 maio

Cine PE 2012: Festival abre porta do armário, mas coloca diversidade sexual na prateleira

Curtas desta segunda abor­da­ram tema da homos­se­xu­a­li­dade e res­peito às diferenças

Por Alexandre Figuerôa Editor da Revista O Grito!, no Recife

A mos­tra com­pe­ti­tiva de cur­tas do CinePE 2012 che­gou ao seu penúl­timo dia com uma sele­ção vol­tada para fil­mes que tra­ta­ram de ques­tões da diver­si­dade sexual e da igual­dade nas dife­ren­ças. Um cri­té­rio meio estra­nho para orga­ni­za­ção da grade de pro­gra­ma­ção, sobre­tudo para os cur­tas que abor­da­vam o tema da homos­se­xu­a­li­dade. Isto mos­tra que a ques­tão homos­se­xual é vista ainda como algo fora dos padrões, ou seja, estes fil­mes pre­ci­sa­vam de um dia espe­cí­fico para serem apre­sen­ta­dos em con­junto numa pra­te­leira temá­tica e não como algo per­fei­ta­mente natu­ral capaz de con­vi­ver com qual­quer outro tema.

E a care­tice não é só de quem pen­sou o fes­ti­val, como tam­bém estava pre­sente em parte do público que lotava o Teatro Guararapes na noite de ontem. E isto foi visto prin­ci­pal­mente na exi­bi­ção do curta Na Sua Companhia (foto), de Marcelo Caetano. Os comen­tá­rios equi­vo­ca­dos durante a pro­je­ção, os risos com­ple­ta­mente des­lo­ca­dos e os aplau­sos tími­dos no final reve­la­ram um estado de ten­são e incom­pre­en­são em rela­ção ao filme, exi­bido após Garotas da Moda, de Tuca Siqueira, outra obra com per­so­na­gens homos­se­xu­ais, no caso drag que­ens, da cidade de Goiana, no inte­rior de Pernambuco.

O filme de Tuca é um docu­men­tá­rio cujo foco é o coti­di­ano de cinco tra­ves­tis. Goiana, na Zona da Mata Norte, com suas usi­nas e cana­vi­ais é tam­bém conhe­cida pela grande movi­men­ta­ção gay entre as cida­des do inte­rior do estado. Lá acon­tece uma parada da diver­si­dade e tem artis­tas como as cinco per­so­na­gens do filme que se jun­ta­ram para for­mar um grupo inti­tu­lado The Fashion Girls. O curta é inte­res­sante por dar voz aos seus pro­ta­go­nis­tas sem cer­cear a sua liber­dade. O espec­ta­dor é apre­sen­tado a este uni­verso com natu­ra­li­dade e as cinco drags se expres­sam com fran­queza, mes­clando uma certa inge­nui­dade e o humor pecu­liar de quem está cale­jado de lutar para afir­mar suas iden­ti­da­des sexu­ais. Tuca con­se­guiu arti­cu­lar com deli­ca­deza e har­mo­nia as falas dos per­so­na­gens e as ima­gens que vão dese­nhando os seus perfis.

Presentes à exi­bi­ção, as drags ganha­ram a sim­pa­tia do público e o filme foi muito bem rece­bido. E aí está o nó da ques­tão. Por que tanto entu­si­asmo com Garotas da Moda e tanta fri­eza para Na Sua Companhia? O filme do pau­lista Marcelo Caetano, dire­tor de outro curta muito legal inti­tu­lado Bailão, é um sen­sí­vel e con­tun­dente exer­cí­cio de refle­xão sobre as rela­ções afe­ti­vas nos gran­des espa­ços urba­nos, no caso a cidade de São Paulo.

Para Marcelo fica claro como estas cida­des com seus tra­ça­dos desor­de­na­dos não pro­pi­ciam o encon­tro entre as pes­soas e isto se torna mais difí­cil para quem optou por viver sua sexu­a­li­dade de uma forma dife­rente dos padrões esta­be­le­ci­dos. E ele nos mos­tra isto de uma maneira clara e direta. O curta não se define nem como docu­men­tá­rio e nem como fic­ção. Transita entre os dois for­ma­tos com sere­ni­dade e nem por isso atro­pela a nar­ra­tiva. Muito pelo con­trá­rio, com extrema habi­li­dade ele extrai de um olhar natu­ra­lista um recorte poé­tico e vai cos­tu­rando uma cadeia de sig­nos para mos­trar como a cons­tru­ção dos espa­ços afe­ti­vos se deli­neia a par­tir da neces­si­dade de amor ine­rente a todo ser humano inde­pen­den­te­mente das suas esco­lhas sexuais.

E é tal­vez nesta fran­queza e cla­reza dos seus pro­pó­si­tos que Na Sua Companhiainco­moda. Enquanto as drags, legí­ti­mas e autên­ti­cas nas suas mani­fes­ta­ções, como foram vis­tas em Garotas da Moda, são com­pre­en­di­das, pela maior parte das pes­soas, como algo externo a suas exis­tên­cias e vis­tas como cri­a­tu­ras pito­res­cas e exó­ti­cas, os homens amando outros homens do filme de Marcelo Caetano reve­lam uma afe­ti­vi­dade den­tro de nós, invi­sí­vel e viven­ci­ada por mui­tos em segredo. E, infe­liz­mente, para muita gente isto é algo em que é melhor fazer de conta não existir.

Mas, para alí­vio dos defen­so­res dos valo­res fami­li­a­res tra­di­ci­o­nais, o último curta da noite, o bem inten­ci­o­nado e sin­gelo L, de Thais Fujinaga, foi o momento de reden­ção que o público do CinePE pare­cia estar espe­rando. O filme mos­tra a his­tó­ria de uma garota magra, alta e com pés um pouco gran­des que vive meio iso­lada por conta das brin­ca­dei­ras dos cole­gas de escola, que a cha­mam de garça. Sua vida se torna menos difí­cil quando ela conhece um garoto de ascen­dên­cia chi­nesa que tem o cabelo enca­ra­co­lado. Juntos eles apren­dem a con­vi­ver com a situ­a­ção. A aco­lhida a L foi um pouco super­di­men­si­o­nada e levou a pla­teia a um êxtase des­co­mu­nal de gri­tos e aplau­sos. Tudo bem que o filme é legal, bem rea­li­zado, bonito, tem uma pro­posta bacana de mos­trar como é pos­sí­vel se viver com as dife­ren­ças, mas não tem nada de extraordinário.

A sen­sa­ção que temos, sem menos­prezo do público, é que Na Sua Companhia, embora não seja um filme her­mé­tico e muito menos uma obra ape­nas para ini­ci­a­dos, por sua pro­posta de dizer não a hipo­cri­sia e de não sucum­bir a pudo­res des­ne­ces­sá­rios está um pouco além do padrão com­por­ta­men­tal médio dos espec­ta­do­res que vão ao CinePE, mas afeito a comé­dias leves e fil­mes edificantes.

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