Arquivo | maio, 2012

Balanço Crítico – Tiradentes

15 maio

Reuni neste post algumas das críticas que saíram sobre o filme “Na sua companhia” após a exibição no festival de Tiradentes, em janeiro de 2012. Tentei agrupar a maior diversidade possível de pontos de vista para sentir um pouco qual é o arco de diálogo do filme.

Gostaria muito de ter tido pique de reunir também pequenos (e curiosos) comentários que surgiram. Mas acho que isto desequilibraria os textos aqui reunidos, que são frutos de alguma reflexão sobre o filme.

Ao final, segue uma entrevista sobre o filme para o jornal O Tempo. Foi logo após as exibições no MIX e Janela. Reler ela hoje é muito interessante, pois o filme se transformou muito após as exibições em Tiradentes e no Cine Pe.

1) Marcelo Ikeda, para o blog Cinecasulofilia / Jornal do Curta

“O curta de Caetano apresenta dois homens que se encontram por acaso na noite e começam a desenvolver uma relação afetiva. Delicado, quebra as representações tradicionais tanto de gênero quanto da periferia. A representação do universo dos homossexuais ou do espaço da periferia não acontece pela “via negativa” mas sim afirmativa: os personagens possuem vida porque não são essencialmente “representantes de classe”. Isso se dá certamente pelas estratégias de encenação de Caetano, sua opção pelos espaços, pelos tempos, pelos olhares e pelos toques dos protagonistas. Caetano busca criar um espaço íntimo em que esses personagens se conhecem e se aproximam, a partir das suas diferenças e das suas semelhanças. Cria esse espaço também por uma estratégia: um personagem procura filmar o outro, e a câmera digital, “amadora”, busca recriar essa distância entre os corpos, “reencenando” essa tentativa de aproximação. Mas acredito que o curta de Caetano seja bem-sucedido não tanto por essa “estratégia” mas simplesmente pela delicadeza do realizador em evitar as “estratégias de choque”.

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2) Luiz Carlos Merten, Estado de São Paulo

“Os curtas de segunda à noite teriam – talvez – provocado escândalo na praça. Na tenda, fechada – e com impropriedade controlada -, algumas pessoas não aguentaram as cenas de homossexualismo (quase) explícito de Na Sua Companhia, de Marcelo Caetano. O filme revela imagens de uma São Paulo que muita gente ignora (e preferiria continuar ignorando), situada entre a Praça da República e o Largo do Arouche. Uma São Paulo gay que o diretor já havia abordado em Bailão e à qual volta agora com samba e outros ritmos afros. O cinema de Marcelo Caetano não é para todos os gostos – ele mostra, sem elaborar necessariamente um discurso -, mas havia gente defendendo a divulgação e o conhecimento dessas imagens que saem do gueto.”

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3) Cid Nader / blog Cinequanon

“Ao abordar a relação de um casal homossexual (que vai do profundo dos desejos mais interiores – nada fáceis, que abarcam situações de total desapego da “normalidade” social -, ao momento em que se a normalidade volta à tona: quando se abandona o poço protetor/excludente para a socialização numa festa), de modo bem diverso do quase lúdico Bailão (seu curta anterior), aposta visceralmente no choque das imagens e dos comportamentos como ao que deverá abrir os serviços, para que sua nova defesa da causa caminhe. Talvez o filme incite a curiosidade entre se saber se esse chocar está ali para perturbar mesmo, ou se é truque quase pirotécnico.”

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4) Fabio Andrade / Revista Cinética

“Se em Bailão era o indivíduo quem buscava o corpo social, em Na sua Companhia é o close que vai de encontro ao plano de conjunto. Aquele corpo, qualquer, congelado feito estátua em um quarto mal iluminado nos primeiros planos, ganha rosto, luz e movimento em uma roda de samba, uma dança, um casamento. Não há indivíduo potente que não seja suficientemente afetado pelo todo, assim como, sem o plano de conjunto (sem o mundo, a comunidade, o corpo social), o primeiro plano não tem “mais independência semântica que uma preposição numa frase” (André Bazin). Inserido em um cinema brasileiro – e em um Brasil – que parece cada vez mais marcado apenas pelo revés de uma vivência profundamente individualista, esse movimento de reintegração do indivíduo ao corpo social – do primeiríssimo plano com fundo desfocado tão facilmente alcançado pelas 5D para a orquestração potente de todos os elementos que habitam um plano de conjunto – de Na sua Companhia parece se alimentar da constatação de que vida e estética (a moral e o travelling) são formas contíguas de se lidar com o mundo.”

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5) Thiago Mâcedo / Filmes Polvo

“Refletir sobre a estrutura visual fragmentada de Na Sua Companhia é, de certo modo, compreender a proposta de libertação que o cineasta parece estabelecer. Assim como a beleza não pode ser definida plenamente por conceitos antecipadamente tidos como corretos, o desejo, o sexo, o carinho também não podem ser delimitados por uma linha única e aparente. Quando um amante filma o outro com uma câmera digital, ele descobre o interesse nas partes do corpo do outro, não necessariamente no conjunto completo. (…) Para isso, a intimidade vai sendo provada no convívio com uma nova família, descoberta em um samba desse mundo de uma beleza diferente, onde um transformista encarna Maria Bethânia, onde homens sambam encarando a câmera, onde os dois novos amantes descobrem, gradativamente, a tranquilidade que existe no simples ato de estarem juntos.”

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6) Entrevista para Daniel Toledo / O Tempo

Como surgiu o argumento do curta-metragem “Na Sua Companhia”?

“É um filme bastante pessoal. Seu argumento surge da observação e da vivência de situações que aconteceram comigo e com pessoas próximas nas ruas e espaços do centro de São Paulo. Sempre tive uma enorme vontade de filmar uma história de encontro amoroso, mas que se distanciasse das idealizações do amor romântico e falasse da liberdade, do afeto possível e do fim da solidão. Foquei na história de um professor de escola pública que tem como hobby fazer vídeos eróticos com homens que encontra nas ruas, nos bares e lugares de pegação da cidade. Em meio a suas caçadas, encontra um cozinheiro de um restaurante popular que, além de entrar em seu jogo, começa a mostrar para o professor que os encontros podem se prolongar mais, se distenderem sobre o tempo, um tempo afetivo, em que olhares podem se ampliar e a vida pode surgir, vibrar.”

ENTREVISTA COMPLETA

Cine PE – parte 1

4 maio

Cine PE 2012: Festival abre porta do armário, mas coloca diversidade sexual na prateleira

Curtas desta segunda abor­da­ram tema da homos­se­xu­a­li­dade e res­peito às diferenças

Por Alexandre Figuerôa Editor da Revista O Grito!, no Recife

A mos­tra com­pe­ti­tiva de cur­tas do CinePE 2012 che­gou ao seu penúl­timo dia com uma sele­ção vol­tada para fil­mes que tra­ta­ram de ques­tões da diver­si­dade sexual e da igual­dade nas dife­ren­ças. Um cri­té­rio meio estra­nho para orga­ni­za­ção da grade de pro­gra­ma­ção, sobre­tudo para os cur­tas que abor­da­vam o tema da homos­se­xu­a­li­dade. Isto mos­tra que a ques­tão homos­se­xual é vista ainda como algo fora dos padrões, ou seja, estes fil­mes pre­ci­sa­vam de um dia espe­cí­fico para serem apre­sen­ta­dos em con­junto numa pra­te­leira temá­tica e não como algo per­fei­ta­mente natu­ral capaz de con­vi­ver com qual­quer outro tema.

E a care­tice não é só de quem pen­sou o fes­ti­val, como tam­bém estava pre­sente em parte do público que lotava o Teatro Guararapes na noite de ontem. E isto foi visto prin­ci­pal­mente na exi­bi­ção do curta Na Sua Companhia (foto), de Marcelo Caetano. Os comen­tá­rios equi­vo­ca­dos durante a pro­je­ção, os risos com­ple­ta­mente des­lo­ca­dos e os aplau­sos tími­dos no final reve­la­ram um estado de ten­são e incom­pre­en­são em rela­ção ao filme, exi­bido após Garotas da Moda, de Tuca Siqueira, outra obra com per­so­na­gens homos­se­xu­ais, no caso drag que­ens, da cidade de Goiana, no inte­rior de Pernambuco.

O filme de Tuca é um docu­men­tá­rio cujo foco é o coti­di­ano de cinco tra­ves­tis. Goiana, na Zona da Mata Norte, com suas usi­nas e cana­vi­ais é tam­bém conhe­cida pela grande movi­men­ta­ção gay entre as cida­des do inte­rior do estado. Lá acon­tece uma parada da diver­si­dade e tem artis­tas como as cinco per­so­na­gens do filme que se jun­ta­ram para for­mar um grupo inti­tu­lado The Fashion Girls. O curta é inte­res­sante por dar voz aos seus pro­ta­go­nis­tas sem cer­cear a sua liber­dade. O espec­ta­dor é apre­sen­tado a este uni­verso com natu­ra­li­dade e as cinco drags se expres­sam com fran­queza, mes­clando uma certa inge­nui­dade e o humor pecu­liar de quem está cale­jado de lutar para afir­mar suas iden­ti­da­des sexu­ais. Tuca con­se­guiu arti­cu­lar com deli­ca­deza e har­mo­nia as falas dos per­so­na­gens e as ima­gens que vão dese­nhando os seus perfis.

Presentes à exi­bi­ção, as drags ganha­ram a sim­pa­tia do público e o filme foi muito bem rece­bido. E aí está o nó da ques­tão. Por que tanto entu­si­asmo com Garotas da Moda e tanta fri­eza para Na Sua Companhia? O filme do pau­lista Marcelo Caetano, dire­tor de outro curta muito legal inti­tu­lado Bailão, é um sen­sí­vel e con­tun­dente exer­cí­cio de refle­xão sobre as rela­ções afe­ti­vas nos gran­des espa­ços urba­nos, no caso a cidade de São Paulo.

Para Marcelo fica claro como estas cida­des com seus tra­ça­dos desor­de­na­dos não pro­pi­ciam o encon­tro entre as pes­soas e isto se torna mais difí­cil para quem optou por viver sua sexu­a­li­dade de uma forma dife­rente dos padrões esta­be­le­ci­dos. E ele nos mos­tra isto de uma maneira clara e direta. O curta não se define nem como docu­men­tá­rio e nem como fic­ção. Transita entre os dois for­ma­tos com sere­ni­dade e nem por isso atro­pela a nar­ra­tiva. Muito pelo con­trá­rio, com extrema habi­li­dade ele extrai de um olhar natu­ra­lista um recorte poé­tico e vai cos­tu­rando uma cadeia de sig­nos para mos­trar como a cons­tru­ção dos espa­ços afe­ti­vos se deli­neia a par­tir da neces­si­dade de amor ine­rente a todo ser humano inde­pen­den­te­mente das suas esco­lhas sexuais.

E é tal­vez nesta fran­queza e cla­reza dos seus pro­pó­si­tos que Na Sua Companhiainco­moda. Enquanto as drags, legí­ti­mas e autên­ti­cas nas suas mani­fes­ta­ções, como foram vis­tas em Garotas da Moda, são com­pre­en­di­das, pela maior parte das pes­soas, como algo externo a suas exis­tên­cias e vis­tas como cri­a­tu­ras pito­res­cas e exó­ti­cas, os homens amando outros homens do filme de Marcelo Caetano reve­lam uma afe­ti­vi­dade den­tro de nós, invi­sí­vel e viven­ci­ada por mui­tos em segredo. E, infe­liz­mente, para muita gente isto é algo em que é melhor fazer de conta não existir.

Mas, para alí­vio dos defen­so­res dos valo­res fami­li­a­res tra­di­ci­o­nais, o último curta da noite, o bem inten­ci­o­nado e sin­gelo L, de Thais Fujinaga, foi o momento de reden­ção que o público do CinePE pare­cia estar espe­rando. O filme mos­tra a his­tó­ria de uma garota magra, alta e com pés um pouco gran­des que vive meio iso­lada por conta das brin­ca­dei­ras dos cole­gas de escola, que a cha­mam de garça. Sua vida se torna menos difí­cil quando ela conhece um garoto de ascen­dên­cia chi­nesa que tem o cabelo enca­ra­co­lado. Juntos eles apren­dem a con­vi­ver com a situ­a­ção. A aco­lhida a L foi um pouco super­di­men­si­o­nada e levou a pla­teia a um êxtase des­co­mu­nal de gri­tos e aplau­sos. Tudo bem que o filme é legal, bem rea­li­zado, bonito, tem uma pro­posta bacana de mos­trar como é pos­sí­vel se viver com as dife­ren­ças, mas não tem nada de extraordinário.

A sen­sa­ção que temos, sem menos­prezo do público, é que Na Sua Companhia, embora não seja um filme her­mé­tico e muito menos uma obra ape­nas para ini­ci­a­dos, por sua pro­posta de dizer não a hipo­cri­sia e de não sucum­bir a pudo­res des­ne­ces­sá­rios está um pouco além do padrão com­por­ta­men­tal médio dos espec­ta­do­res que vão ao CinePE, mas afeito a comé­dias leves e fil­mes edificantes.